(integra do texto, Jornal "O globo", Boa Chance, coluna ABRH, 14/01/07)
Você sente o coração acelerar, as mãos suadas e aquele friozinho na barriga quando anda de bicicleta? NÃO? Pois devia! Um estudo elaborado pela Federal Aviation Administration revelou que passear de bicicleta é 8 vezes mais perigoso do que viajar de avião. Não é incrível?
Mas antes de aposentar sua bicicleta, veja outra pesquisa: 42% dos brasileiros sentem medo de voar de avião (Ibope, 2003). E não adianta dizer que o avião é o segundo meio de transporte mais seguro. Sentimentos ignoram estatísticas.
Durante alguns anos trabalhei em uma empresa aérea, aplicando cursos comportamentais para gerentes, pilotos e comissários e a maioria já havia presenciado algum episodio de medo, mas o assunto ainda era tratado na sombra, discretamente, anonimamente.
Alguns anos depois iniciei um trabalho que seria o alicerce de um curso sobre o medo de voar. Criei minha própria pesquisa. E confusão também!
- “Você tem medo de voar de avião”?, perguntava pronta para o "sim" ou "não". Mas a resposta invariavelmente vinha com a seguinte introdução: - Bem, fico muito ANSIOSA na decolagem. Mas medo ... acho que não! - Aquela corridinha na pista MEXE com meus nervos. Tem nervoso ai? - Fico um pouco TENSO quando o avião balança. Tensão não é medo, certo?
Ansioso, nervoso, tenso e mais um montão de outros adjetivos, mas MEDO mesmo, poucos tinham. Ou assumiam. Agora EU é que estava com medo de não chegar a lugar algum. Ansiedade, medo, tensão, fobia, tem significados diferentes e geram reações diferentes.
Por outro lado, no âmbito das emoções cada um tem “dicionário” particular com o qual define não só as palavras mas também sua intensidade. Assim o “tenso” de um, pode ser o “medo” do outro.
Antes de entrar em “pânico” resolvi mudar o foco e retornei às mesmas pessoas perguntando: “Você conhece alguém com medo de voar?” Agora sim! Céu de brigadeiro! O resultado comprova as pesquisas.
Parece que ficamos mais... à vontade, digamos assim, ao rotular o sentimento do outro. Já o nosso..., bem é preciso cuidado com as palavras.
Sentir medo é absolutamente natural, ele nos preserva de perigos reais, dando aquela energia extra que precisamos para evitá-los ou enfrentá-los.
Mas o medo excessivo, ou fobia, aquele que nos paralisa, nos impede de cumprir compromissos, trazendo sofrimento; esse é prejudicial e precisa ser tratado adequadamente e por profissionais especializados.
Já o medo mais leve, aquele que é mais fruto da imaginação do que razão, que surge na turbulência, no roncar dos motores, na decolagem ou pouso, nos olhos cravados nos tripulantes para saber se está tudo bem, este pode ser mais simples de superar. Aqui a informação é uma boa aliada.
Sabendo que o esperado em uma turbulência é no máximo o balançar da aeronave, e que isto não significa sua queda, podemos controlar melhor nossas reações. Quando estamos familiarizados com alguns barulhos típicos do vôo não ficamos à mercê da nossa fértil imaginação.
Mas voltando à questão do medo ser mais visível no outro, tenho uma deliciosa história que retrata muito bem isso.
Era um vôo da ponte aérea Rio / São Paulo, onde uma simpática senhora contagiou a todos com seu... RECEIO, digamos assim. Tudo corria às mil maravilhas até entrar uma forte tempestade. Balança aqui e ali e ela vai ficando nervosa. Quando os comissários param o serviço ela se descontrola e aos gritos diz que o avião vai cair, etc.
A princípio havia censura, ironia e até riso disfarçado nos passageiros. Com o passar do tempo, e o aumento da turbulência, surge uma certa cumplicidade e alguns já externam seu medo também.
Ela pede que todos dêem as mãos e rezem. As primeiras fileiras aderem. Mas ela resolve fazer “uma introdução”, quase uma triste despedida. O clima é pesadíssimo, a corrente aumenta. Alguns choram.
Então um rapaz desmaia (depois soubemos que já embarcou com problemas de saúde) e a atenção (e tensão!) se dispersa. A tal senhora se concentra no “diagnóstico” do rapaz.
Minutos depois, nervos em “frangalhos”, pousamos. Um senhor ligeiramente irônico comenta: A senhora deve ter MUITO medo de avião, não é?
Medo?, responde surpresa. Medo tem aquele jovem que desmaiou. Eu SÓ não gosto de tempestades!!! É desconfortável.
Pois é, então ficamos assim; se o medo, ansiedade, tensão ou desconforto ou outro sentimento que você denominar incomodar você, pratique a primeira regra para vencê-lo: Aceite-o!
Aceitando-o você pode até descobrir que o fantasma não passa de um velho e amassado lençol. E quem sabe você pode, como eu, brincar com ele.